Em 2025, Jenny Wen, líder de design no Claude da Anthropic, declarou que o processo de design morreu. A NNGroup respondeu que morreu não, está comprimido.
Pra morrer tinha que ter estado vivo. Na maioria dos lugares onde se faz design no mundo, processo formal nunca existiu. A proporção real de designers para desenvolvedores é de 1:100 na maior parte dos casos. Processo de design estabelecido sempre foi um sonho de uma noite de verão, não uma realidade.
Então que processo morreu exatamente?
O processo de design morreu!
Depois da repercussão das palavras da líder de design da Anthropic, eu fui atrás de entender melhor o argumento. No site da Jenny, encontrei a publicação que originou o debate, uma reflexão sobre o Double Diamond. Entre 2014 e 2020, no contexto do Vale do Silício, design virou sobre O Processo. Portfólios pararam de mostrar o trabalho e passaram a mostrar artefatos como jornadas, personas, fluxos, histórias de usuário. Prova de que o processo aconteceu. Nesse caminho, designers pararam de se importar com a coisa em si, com o que a pessoa via e sentia ao usar o que foi feito. Ficaram servindo ao processo em vez de servir ao trabalho.
Até aqui, é uma observação válida. Às vezes ficamos um pouco acostumados a uma certa interpretação porque é o que o mercado espera. Mas eu sempre entendi isso como sendo um treinamento para fazer entrevista, não como exatamente o que os gerentes iam esperar de mim no trabalho. 2020 foi quando eu formalmente entrei para o caminho do design e lembro de aprender o Double Diamond como um dos processos de design, não o único. Na hora de fazer o portfólio, o que me ensinaram sobre processo não foi tanto se eu segui ou não à risca, mas se eu entendi o porquê de eu estar fazendo o que fiz e documentar decisões de design. Essa documentação tinha a ver mais com saber explicar para os outros (porque comunicação é uma habilidade chave para designers) do que com seguir de forma ortodoxa um modelo metodológico específico.
O problema é o salto ornamental que vem depois. Ela parte de duas observações razoáveis, que portfólios ficaram ortodoxos demais e que o processo de design não é linear, e de alguma forma chega na conclusão de que “o processo de design” (como se só existisse um) está morto e temos que seguir só a intuição. Mas como construir intuição sem experiência? Esse é o ponto da NNGroup (que também é californiana). Sem processo, o que sobra? No discurso da Jenny, o que sobra é correr atrás dos engenheiros para “aprender algo novo”, como se isso fosse muito diferente do que já se faz. Vender isso como inovação e visionarismo é reforçar o status quo que tem progressivamente desvalorizado a profissão de design.
Longa vida ao processo de design!
“NN” são as iniciais dos fundadores, Jakob Nielsen e Don Norman, que popularizaram técnicas de ergonomia e psicologia do trabalho aplicadas a computadores. Don Norman foi VP da Apple, chamou seu cargo de “User Experience Architect”, e o termo se popularizou. Jakob Nielsen criou as 10 heurísticas de usabilidade e ainda é uma voz relevante no tema. O processo de design que eles defendem é o Design Centrado no Usuário (User-Centric Design).
A resposta deles à Jenny é conservadora (afinal eles vendem curso de DCU, têm que proteger o jabá), mas tem um ponto válido. De fato, a experiência e a exposição ao trabalho de design são necessárias para desenvolver intuição. Designers experientes não “pulam processo”, e sim têm um repertório internalizado que lhes permite tomar decisões mais rapidamente. A intuição a que Jenny Wen alude é resultado de anos de prática, não substituto dela.
Porém, o pressuposto da NNGroup é fundamentalmente o mesmo da líder da Anthropic, isto é, que existe uma abordagem única e ideal de design e que essa abordagem serve para tudo.
Que processo de que design
O debate sobre a morte do processo de design reflete a realidade específica da indústria de produtos digitais dos Estados Unidos. É uma discussão válida dentro desse contexto, mas que, pela visibilidade de quem a conduz, acaba sendo recebida como se dissesse respeito a todos. O design existe e sempre existiu para além desse recorte.
Para Mauricio Mejía, professor de design na Arizona State University, não existe um único método de design ou design prescritivo, como sugerido por modelos como o Design Thinking e o Double Diamond. Na verdade, esses moldes distorcem o que designers de fato fazem, que é altamente adaptativo. Na prática, os processos de design são bagunçados mas rigorosos (messy but rigorous), reordenados a cada projeto. Não existe um manual único, existe um campo de jogo. Nesse caso, o debate Anthropic x NNGroup perde o sentido porque não existe processo único para morrer ou ressuscitar.
Karri Saarinen, CEO da Linear, recorre ao designer e arquiteto Christopher Alexander para definir design como a busca de um encaixe entre forma e contexto. Alexander, cuja obra influenciou tanto a arquitetura quanto o design de software, entende contexto como o sistema de forças que constitui o problema. Quando essas forças ficam sem resolução, o design falhou.
“O pressuposto [por trás das novas ferramentas] é claro: que design é o ato de produzir. Esse é o mal-entendido. A parte difícil do design raramente é gerar a forma. É entender o problema bem o suficiente para saber o que e como algo deveria existir.” — Karri Saarinen, Output isn’t design
Para Karri, design é o ato de entender, não de produzir. Assim como escrever organiza o pensamento, trabalhar visualmente organiza a compreensão do problema. Mover coisas, testar relações e refinar estrutura é parte de como a clareza emerge. Delegar isso para a IA gera resultado, não entendimento. IA pode ajudar a prototipar, explorar, investigar. Mas design exige julgamento, conversa, tensão e tempo. O risco é confundir forma gerada com problema resolvido.
Essa movimentação é o processo de design, que sempre toma a forma do contexto. A discussão que predomina hoje na internet, porém, carrega a premissa oposta.
Design universal e ideologia californiana
A premissa de que existe uma maneira certa e universal de fazer design, baseada num pressuposto metodológico sequencial, quase como uma linha de montagem, foi construída pela Escola de Ulm e adotada pelo Vale do Silício de forma praticamente direta.
Na Califórnia, o método ganha velocidade (prazo de ciclo de entrega), validação pelo mercado (se escala, o design estava certo) e despolitização (o método é neutro, o designer é operador, não alguém que faz escolhas políticas). Barbrook e Cameron chamaram isso de ideologia californiana, onde tecnologia liberta, o mercado resolve, política é atrito. O Double Diamond é filho desse casamento, um método que se apresenta como universal dentro de uma ideologia que não se reconhece como ideologia.
Mas esse contexto representa menos de 5% dos lugares onde se faz design no mundo. No Brasil, na América Latina, na África, no sudeste asiático, em agências, consultorias, ONGs, governo, nunca teve Double Diamond. Tinha gente fazendo design do jeito que dava, com os recursos que tinha, muitas vezes com resultado bom, muitas vezes sem. Mesmo a ESDI, a primeira instituição de ensino superior em design no Brasil, fundada no Rio de Janeiro em 1963 diretamente inspirada em Ulm, não reproduziu o modelo como cartilha. O Double Diamond, pra morrer, tinha que ter estado vivo.
Por isso a fala da Anthropic e a resposta da NNGroup não surpreendem. Ambas são enraizadas na lógica produtivista de design típica do Vale do Silício. Isto é, a produção em escala antecede o entendimento do problema. A postura de designer como operador, não como pensador crítico, fica evidente na reação da líder de design da Anthropic ao receber críticas. Em vez de pensar sobre o que disse, afirmou que “o mercado não está pronto” para o que a Anthropic propõe. Dito dessa forma, parece que a proposta é fazer design visionário. Os números, porém, indicam um cenário menos animador.
O impacto da IA no mercado de trabalho de design
De 2022 para cá, quando as IAs começaram a se popularizar, a profissão de designer perdeu valor e postos de trabalho. Jeff Sauro, autor de Quantifying the User Experience e fundador da MeasuringU, coordena a pesquisa bienal da UXPA com 444 respondentes em 37 países. Em 2024, a pesquisa mostrou que a perda de profissionais de UX voltou ao nível da crise financeira de 2009, e pela primeira vez em toda a série histórica a adição e a perda ficaram empatadas: 35% a 35%. O campo parou de crescer. A pesquisa (research) foi a área mais atingida, com quase um quarto das empresas eliminando pesquisadores dedicados. Em 2025, começou uma recuperação parcial de vagas, mas que favorece seniores e exclui juniores.
A indústria passou uma década melhorando a proporção (IBM de 1:72 pra 1:8, Uber cresceu o time de design 70x) e agora está revertendo essa tendência com demissões concentradas em design e pesquisa, enquanto contrata engenheiros de IA. Num sentido mais amplo, o layoffs.fyi registrou demissões acumuladas de mais de 800 mil cargos entre engenharia, design, gerência, produto e outras funções. O argumento usado para a segunda onda de demissões, que começou em 2024, é “reestruturação por IA”. Na prática, empresas estão reorganizando times para serem enxutos e trabalharem com ferramentas de IA, inclusive design. Isso é uma mudança estrutural que não tem data para acabar.
Conclusão
O processo de design não morreu porque nunca existiu no singular. O que existe são processos, no plural, adaptados a contextos, recursos e problemas específicos. Declarar a morte de algo que a maioria das pessoas nunca praticou, num momento em que a profissão enfrenta a maior crise da sua história recente, não é provocação intelectual. É falta de leitura do contexto, justamente o que designers deveriam saber fazer.
O debate entre a Anthropic e a NNGroup é legítimo dentro do recorte de quem o vive. O problema é quando esse recorte se apresenta como universal, e quando a ideologia por trás dele não se reconhece como tal. Sobre isso, há mais a dizer. Fica para um próximo texto.
Referências
- Jenny Wen, “Don’t trust the process”, jennywen.ca (palestra original na Hatch Conference, Berlim, set. 2025; entrevista no Lenny’s Newsletter, mar. 2026)
- NNGroup, “The Design Process Isn’t Dead”, nngroup.com. Link
- Barbrook, R. & Cameron, A. “The Californian Ideology” (1995)
- Sauro, J. & Lewis, J. R. “How Does the UX Job Market Look for 2025?”, MeasuringU, jan. 2025 (análise da pesquisa UXPA 2024: 444 respondentes, 37 países)
- Sauro, J. & Lewis, J. R. Quantifying the User Experience, MeasuringU Press
- layoffs.fyi: dados acumulados de demissões em tecnologia
- Mejía, G. M. “Design is a series of activities in a process”, LinkedIn, dez. 2025. Link
- Alexander, C. Notes on the Synthesis of Form, Harvard University Press, 1964
- Saarinen, K. “Output isn’t design”, Linear, 17 abr. 2026. Link